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Não pise na areia 524z

A construção de arelas no o às praias é uma das estratégias do projeto Dunas Costeiras, que recupera a vegetação e a fauna do litoral gaúcho.

Carlos Matsubara ·
4 de janeiro de 2005 · 20 anos atrás

Uma iniciativa inédita no país está recuperando um dos ecossistemas mais belos do litoral gaúcho. O projeto Dunas Costeiras, que já dura 15 anos, tem como foco ações para a preservação e recuperação da vegetação nativa e fauna dos cordões de dunas.

Amparado por legislação federal, o cordão de dunas é uma área de preservação permanente. Nesses locais, muito sensíveis à intervenção humana, a vegetação serve de anteparo natural, impedindo que a areia invada campos e banhados, desequilibrando todo o ecossistema da região, com significativa redução na biodiversidade.

O Dunas Costeiras é desenvolvido pelo Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (Nema) da Fundação Universidade Federal de Rio Grande (Furg). Entre os resultados do projeto, destaca-se o balneário Cassino, no litoral sul do Estado, onde a recuperação da vegetação foi um sucesso. Ali foi aplicada uma técnica chamada “galhação”, que consiste simplesmente em colocar centenas de galhos nas areias para sustentar a vegetação das dunas. Outra medida foi o fechamento dos os à praia, deixando apenas os “estratégicos”, onde o pisoteio não é prejudicial. O ponto alto, que mereceu festa de inauguração em setembro de 2003, foi a implantação de arelas por cima das dunas.

Feitas em madeira de eucalipto, com 150 metros de comprimento por 2 metros de largura, as arelas custaram em torno de R$ 87 mil. “Elas seguem a estrutura das dunas e evitam a perda de biodiversidade, além de propiciar uma trilha educativa”, explica Kléber Grübel da Silva, oceanólogo e técnico-executivo do projeto.

O exemplo do Cassino tem rendido frutos, mesmo que pequenos diante dos mais de 600 quilômetros do litoral do estado. Em 2004, mais três municípios do litoral norte investiram em arelas — Tramandaí, Torres e Atlântida. A pedagoga Valéria di Lorenzo aprovou a novidade. Segundo ela, ficou mais fácil deixar a orla com os filhos Igor, 18 meses, e Ornella, 5 anos. “Está uma maravilha, é bem melhor cruzar nas arelas” diz Valéria. De acordo com o geólogo da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Nilo Barbosa, os arcos erguidos diminuem o tráfego de turistas sobre as dunas e contribuem para a proliferação da extensa teia de raízes produzida pela vegetação, ajudando a fixar a areia.

Os pesquisadores do Nema comemoraram a volta do tuco-tuco (Ctenomys flamarioni) às areias do Cassino. O pequenino roedor típico das dunas está em risco extinção. Também aparecem no ecossistema dezenas de répteis, anfíbios, duas espécies de aves marinhas — maçarico-de-colar e ostreiro — e centenas de insetos.

Outra atividade executada pelo Nema é o replantio da vegetação. Os técnicos coletam espécies na época de floração, como o capim-salgado (Spartina filiata) e a margarida das dunas (Senecio krassiflorus). As mudas são colocadas em viveiros para depois serem replantadas em locais estrategicamente escolhidos. “Esse replantio é de cunho educativo, porque a grande revegetação acontece naturalmente quando há preservação”, ensina o executivo do projeto, que conta com o apoio do Fundo Nacional de Meio Ambiente, da Prefeitura de Rio Grande, Fundação O Boticário e da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema).

Embora seja aplicável em qualquer ponto do litoral brasileiro, desde que observadas as características do local, o projeto ainda não decolou no próprio Estado. “Absolutamente por falta de respostas positivas dos executivos municipais”, lamenta Kléber Silva. As dunas gaúchas enfrentam problemas como a mineração clandestina, o depósito de lixo e os loteamentos desordenados. A situação no litoral norte é a mais delicada. Há anos a região sofre forte especulação imobiliária e um crescente aumento de favelas, principalmente de Imbé até o balneário de Pinhal, mais popular e abandonado. Durante o verão esse trecho é o mais procurado por turistas e a situação das dunas é precária, isso quando elas ainda existem. Os pesquisadores alertam também para a situação da praia do Hermenegildo. Lá as construções foram feitas exatamente em cima das dunas. “É um exemplo de como não deve ser feito”, diz Kléber.

Como se não bastassem esses problemas, o rebanho bovino vem representando uma nova ameaça ao ecossistema. Por falta de alimentação, o gado tem invadido as praias do litoral sul em busca de pastagem. A presença inusitada preocupa os ambientalistas porque os animais arrasam a vegetação do cordão de dunas.

De acordo com o oceanólogo César Cordazzo, do Laboratório de Ecologia Vegetal Costeira da Furg, a pecuária é, historicamente, uma das principais fontes de renda de quem vive no litoral. Entretanto, décadas atrás o número de bovinos era pequeno, permitindo a recuperação gradativa das plantas. “Hoje, o pastoreio sobre a vegetação das dunas é mais intenso porque parte das áreas utilizadas antes como pastagem agora é ocupada por plantações de pinus. O solo no local não tem grande disponibilidade de nutrientes, e a flora tem dificuldade de se recompor”, explica.

* Carlos Matsubara é paulista radicado em Porto Alegre. Formado em jornalismo pela Unisinos (RS), atualmente é o editor da Agência de Notícias Ambiente JÁ e repórter do Jornal JÁ Porto Alegre.

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